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Por: Embrapa | 17/10/2017

De pastagem degradada até superprodutividade: conheça esta história que aconteceu em MG.

Como uma pequena propriedade familiar com pastagem degradada superou a média nacional de produção de leite.

ILPF na Chácara das Gabirobas (MG). Foto: Embrapa

A Chácara das Gabirobas, no interior de MG, é uma propriedade transformada pela correta aplicação dos preceitos da tecnologia. Em menos de 10 anos, uma propriedade improdutiva, infestada de pragas e com solo degradado se tornou uma Unidade de Referência Tecnológica (URT) em Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) em parceria com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), a Embrapa Gado de Leite (MG) e a Prefeitura Municipal de Coronel Xavier Chaves.

A pequena fazenda pertence ao casal Vanderlei dos Reis Souza e Maura Juliana da Silva Souza. A pecuária leiteira é a atividade principal da propriedade. Além do casal, o pai de Vanderlei, João Ferreira de Souza, e as filhas Joyce e Maysa ajudam nas tarefas da propriedade. As meninas, com apuração e controle de dados. Hoje a Chácara das Gabirobas tem produção média anual de 238 litros de leite por dia, com um rebanho de 17 vacas, sendo 14 em lactação. Entre janeiro de 2017 e outubro de 2017 cada litro de leite produzido teve um custo R$ 0,75 e foi vendido na média por R$1,05, com resultado positivo R$ 0,30 por litro considerando o custo operacional efetivo. 

Até há três anos, o produtor tinha o rebanho três vezes maior, com o triplo da produção, mas realizou o replanejamento da atividade, visando maior disponibilidade de tempo para passar com a família, em viagens,  lazer e descanso.  O resultado, tanto antes como depois, é acima da média nacional. Outras atividades que contribuem para o aumento da renda da chácara incluem produção de madeira (eucalipto) e de queijo artesanal.

Mas nem sempre foi assim. Quando adquiriu a propriedade dos avós, em 2005, os 28 hectares da chácara eram um grande pasto degradado, totalmente improdutivo, infestado de formigas e cupins e sem qualquer benfeitoria. Onde hoje é a confortável casa da família, existia apenas um barranco. Foi quando Vanderlei procurou o escritório da Emater-MG em Coronel Xavier Chaves e tudo começou a mudar. A partir de 2008, a parceria com a Embrapa ajudou a transformar ainda mais o cenário da propriedade. A relação de confiança entre o representante da extensão rural, o produtor e os atores da pesquisa agropecuária foi o elemento fundamental para a transformação do sítio. A Prefeitura Municipal é consciente da importância da atividade leiteira para a região e também contribuiu.

Com apoio técnico da Emater-MG, a propriedade de Vanderlei foi incluída no programa Minas Sem Fome/Lavouras Comunitárias. Com a ajuda do financiamento do programa, começaram as mudanças que transformariam a pequena e improdutiva chácara em um exemplo de propriedade familiar produtiva em menos de uma década. E o início foi com o cultivo de feijão em sociedade com um produtor vizinho, o que ajudou a corrigir a acidez do solo.  O técnico da Emater que hoje acompanha a Chácara das Gabirobas, Leonardo Henrique Ferreira Calsavara, lembra que havia na propriedade um hectare de eucalipto, plantado pelo avô, mas sem qualquer técnica e desordenado. Vanderlei pensou eliminar completamente o plantio, mas o extensionista da Emater à época sugeriu que ele cortasse algumas linhas centrais da espécie e deixasse outras. Por exemplo, a cada nove linhas cortadas, uma ficava. E assim foi se formando um pasto sombreado.

A partir de 2006, o leite entra em cena. A sociedade com o vizinho é desfeita por diferença de interesses. A amizade, no entanto, foi mantida e fortalecida. O período inicial da pecuária de leite na chácara foi difícil e repleto de desafios. Calsavara recorda que Vanderlei procurava a Emater sempre que precisava ou queria fazer alguma intervenção na propriedade. “Durante todo o processo, sempre dávamos feedback a ele [Vanderlei], que por sua vez, nos passava dados e informações da produção. Isso aumentou sua confiança, a relação foi se estreitando”, relata. O técnico da Emater ressalta a visão do produtor durante o processo inicial.  “Ele enxergou o negócio. Viu na pecuária de leite com inovações tecnológicas e apoio a oportunidade de continuar no campo, aumentar a produção e rentabilidade, viver daquilo, ao invés de desistir de tudo e ser mais um a buscar o caminho da cidade e disputar uma vaga como empregado no concorrido e difícil mercado de trabalho”.

ILPF entra em cena

A partir de 2008, quando evidenciou-se que a melhor solução para a Chácara dos Gabirobas seria adotar um sistema de integração, a Embrapa Gado de Leite entrou em cena. A Emater-MG recorreu aos pesquisadores da Embrapa Gado de Leite para a implantação de um sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Desde então, vários pesquisadores contribuíram com seus trabalhos, estudos, sugestões e acompanhamento em perfeita harmonia com o produtor e o técnico. 

“O grande segredo do sucesso do trabalho realizado na Chácara das Gabirobas foi o casamento da extensão com a pesquisa, somado ao interesse do produtor. Nesta propriedade estão envolvidos diversos níveis organizacionais: associações de produtores, apoio municipal, estadual e federal com crédito, programas e pesquisa, cada um atuando dentro da sua competência e o produtor gerenciando tudo,” atesta o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Sérgio Rustichelli Teixeira, que acompanha a parte de gerenciamento da propriedade desde 2012.

A Chácara das Gabirobas possui hoje seis hectares de reserva legal, um hectare para atividade silvipastorial (monocultivo), 14 hectares de ILPF, seis hectares para pastagens Brachiaria brizantha c.v. Marandu e 1,7 hecatres com benfeitorias. O rebanho é formado com gado mestiço 7/8 em sistema à base de pasto. Para alimentação na época seca é produzida silagem de milho com pastagem adubada. Há fornecimento de concentrados para todas as categorias do rebanho, de acordo com produção e necessidades, principalmente para vacas em lactação, vacas pré-parto e bezerros em cria e recria. Os insumos são comprados via associação de produtores. O transporte dos alimentos do vendedor até a propriedade é feito pelo fornecedor. Na chácara, são usados dois veículos, um de passeio e um trator, este adquirido com crédito rural.

Em 2011, foram construídas instalações de ordenha com ampla discussão de projeto envolvendo práticas de manejo na propriedade e financiamento externo. O sistema de ordenha é mecânico com quatro conjuntos, com fosso e espinha de peixe, sem bezerro. A partir de maio de 2013 foi iniciada coleta de dados financeiros e técnicos de toda a propriedade utilizando planilha Excel, trabalho que é executado pelas filhas Joyce e Maysa. Esses dados têm por objetivo auxiliar a administração da propriedade e servir de base para divulgação de seus resultados, para cursos, palestras e artigos sobre gerenciamento de propriedades leiteiras.

Começo difícil

Quem circula pelas áreas de produção da Chácara dos Gabirobas ou analisa seus impressionantes dados zootécnicos para uma propriedade de base familiar não imagina as dificuldades enfrentadas para se chegar ao nível alcançado nos dias de hoje. Calsavara é direto ao afirmar que os primeiros meses de implantação da pecuária leiteira foram muito complicados. Vanderlei estava deixando a produção de feijão que já lhe trazia algum rendimento. Mas, para inserir a atividade leiteira, seriam necessários alguns investimentos iniciais e muita paciência e, ainda por cima, ele teria que dispor de alguns bens. “Os investimentos para começar a produção demoram um pouco a trazer retorno. É um momento delicado, quando o produtor pode desistir de tudo, descartar o projeto”, pondera.

Quando se decidiu que a implantação de um sistema de integração seria o melhor caminho para desenvolver a propriedade, foram necessárias generosas doses de paciência e dedicação. O extensionista recorda que seria o primeiro sistema em toda a região e existia desconfiança se daria certo. Calsavara adverte que a desconfiança natural do início e o baixo retorno podem levar a negligenciar algumas práticas importantes para o futuro do projeto, como a capina, por exemplo, o que pode comprometer o desenvolvimento das culturas, se não for feito de forma adequada. O controle de formigas deve ser levado muito a sério e a adubação, idem. “Se tudo não for feito conforme orientado, o resultado pode ser prejudicado, se transformar num ciclo vicioso e por tudo a perder”.

Rustichelli reforça a importância do contato direto entre os envolvidos – produtor, extensionista e pesquisadores. As orientações de cada procedimento ou etapa devem ser precisas e a cobrança por sua execução não pode ser caracterizada como um obstáculo. “Cobrar gera estresse entre as partes, por isso o relacionamento com o produtor deve primar pela confiança, para não intimidar cobranças e questionamentos, pois se no estágio inicial tudo não for feito corretamente, o futuro do projeto fica seriamente comprometido”, ensina o pesquisador.

Planejamento

Todas essas importantes medidas para a implantação de um sistema ILPF dependem de planejamento, pois o trabalho incide em mão de obra. “Afinal, como controlar cada item, mais a ordenha, a reprodução e a sanidade do rebanho, os afazeres pessoais, o dia-a-dia da fazenda?”, questiona Rustichelli. E é o produtor quem dá a receita. “Não há outro jeito, o negócio é acordar às quatro horas da manhã e ficar na lida até o sol se por”, simplifica Vanderlei.

Na Chácara dos Gabirobas, só Vanderlei e o seu pai, João Ferreira, é que trabalham na área produtiva. Dona Maura cuida de outras tarefas do sítio e da casa e as meninas, além de estudarem, são responsáveis pelas anotações dos dados da propriedade. Na época do aumento do fornecimento de volumosos ou nos finais de semana quando o serviço aperta, Vanderlei contrata um ajudante da região, que trabalha em outras fazendas e conhece bem o trabalho.

A importância de seguir o planejamento estabelecido evita equívocos comprometedores, conforme exemplifica o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Alexandre Brighenti, que também participou do projeto de implantação de ILPF na chácara. No primeiro ano, com todas as dificuldades citadas, Vanderlei trabalhou quatro hectares. No segundo, ele queria passar para 10, mas não seria possível: “Afinal não havia mão de obra suficiente para cuidar de um espaço tão grande. Ele também teria que inviabilizar temporariamente mais 10 hectares na propriedade, dificultando a locação de seu rebanho e a produção de forragem para alimentar o gado. No total, ele teria que imobilizar 50% de sua propriedade. Seria prejuízo na certa e o grande risco de desistir de tudo”. Brighenti complementa que o processo tem que ser gradual, pois é preciso dividir a propriedade para implantar o sistema. “O eucalipto tem que chegar a um determinado estágio para se colocar o gado no local”, exemplifica.

Calsavara enfatiza que o sucesso da Chácara dos Gabirobas desmistifica a questão de que a pecuária de leite não dá retorno. “Como se consegue isso? Só com muita dedicação e seriedade de cada parte e utilizando a tecnologia MM, mão na massa”, brinca Calsavara.

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